Categoria: Notícias
Data: 02/03/2022
IGREJA PRESBITERIANA DO RIO DE JANEIRO – 160 ANOS

No último dia 12 de janeiro de 2022, essa venerável igreja, a célula mater do presbiterianismo nacional, atingiu o marco extraordinário de 160 anos de organização eclesiástica. Teve o privilégio de ser fundada pelo Rev. Ashbel Green Simonton, o pioneiro presbiteriano do Brasil. Simonton chegou ao Rio de Janeiro em 12.08.1859 e passou os dois primeiros anos pregando em inglês à comunidade imigrante, aprendendo a língua portuguesa, mantendo contatos valiosos, fazendo viagens de reconhecimento e realizando os primeiros trabalhos no idioma nacional. Em abril de 1860 dirigiu o primeiro culto em português e em maio de 1861 iniciou uma classe bíblica dominical na Rua Nova do Ouvidor, cuja assistência variava de quinze a trinta pessoas. 

Em seguida, passou a realizar cultos regulares em português às quintas-feiras e aos domingos, alegrando-se por poder pregar aos brasileiros. Finalmente, no dia 12.01.1862, admitiu os dois primeiros membros, o americano Henry E. Milford (agente da Companhia Singer de máquinas de costura) e o português Camilo Cardoso de Jesus. Na ocasião, foi celebrada pela primeira vez a Ceia do Senhor. O pioneiro anotou em seu diário: “Assim foi a nossa organização em igreja de Jesus Cristo no Brasil”. Acompanhou-o nesse ato o colega recém-chegado Francis J. C. Schneider. O primeiro membro brasileiro, Serafim Pinto Ribeiro, foi recebido em 22 de junho por um novo missionário, Alexander Blackford, cunhado de Simonton.

No gozo de seu único período de férias, Simonton seguiu para a pátria em fins de março daquele ano. Em 15 de maio, os poucos membros elegeram os três missionários como pastores da igreja, a fim de que seus atos, especialmente o casamento de acatólicos, fossem validados pelo governo imperial. O pioneiro retornou ao Brasil em 16.07.1863, acompanhado de Helen Murdoch, com a qual havia se casado em 19 de março. Infelizmente, esse casamento teve curta duração, pois Helen faleceu em 28.07.1864, aos 30 anos, pouco depois de dar à luz a única filha do casal.

Apesar da grande dor sofrida, o missionário desdobrou-se em inúmeras atividades e a nova igreja foi palco de importantes acontecimentos. Em 22.10.1864 deu-se a profissão de fé do ex-sacerdote José Manoel da Conceição e em 5 de novembro foi lançado o jornal Imprensa Evangélica, primeiro periódico protestante do Brasil. Até o final daquele ano, 31 pessoas foram recebidas na igreja. Dois valorosos colaboradores nessa época foram o jovem evangelista George Whitehill Chamberlain e o poeta Antônio José dos Santos Neves. No final do ano seguinte (1865), a igreja do Rio passou a integrar o Presbitério do Rio de Janeiro, junto com as igrejas de São Paulo e Brotas. Na ocasião, Conceição foi ordenado pastor.

Em 1866, a igreja elegeu seus primeiros diáconos (William Richard Esher, Camilo Cardoso de Jesus e Antônio Pinto de Souza) e presbíteros (William Esher e Pedro Perestrello da Câmara). Depois de passar pelas ruas do Ouvidor, Sete de Setembro e do Regente, em abril de 1867 a comunidade veio a ocupar um espaçoso imóvel de vários pavimentos no Campo de Santana (Praça da República). Nesse local, como suas últimas contribuições, Simonton criou um seminário teológico e uma escola paroquial. O valoroso ministro faleceu em São Paulo no dia 09.12.1867, vitimado pela febre amarela.

Seu sucessor foi o cunhado Alexander Latimer Blackford, casado com Elizabeth Simonton. Ele dirigiu até 1870 o pequeno seminário, no qual estudaram quatro futuros pastores: Modesto Carvalhosa, Antônio Trajano, Miguel Torres e Antônio Pedro de Cerqueira Leite. Teve diversos auxiliares: Francis Schneider, George Chamberlain, Hugh W. McKee, João F. Dagama, John B. Howell e Emanuel Vanorden. No seu pastorado, em 29.03.1874, foi inaugurado na Travessa da Barreira um amplo edifício, o primeiro templo presbiteriano do Brasil. Com o afastamento de Blackford, assumiram o pastorado nos anos 1875-1880 os Revs. Robert Lenington, Antônio Bandeira Trajano, Dillwin MacFadden Hazlett e James Theodore Houston; de 1880 a 1897, James T. Houston, Antônio Trajano, Antônio André Lino da Costa e James Burton Rodgers. O pastorado mais longo (cerca de treze anos), foi o do Rev. Trajano, primeiro pastor nacional. A única outra igreja presbiteriana da cidade era a do Riachuelo, organizada em 21.01.1894.

Um divisor de águas foi a chegada do Rev. Álvaro Emídio Gonçalves dos Reis e sua esposa dona Mariquinha, dando início (1897-1925) a uma série de longos pastorados e grande crescimento. Como havia ocorrido na criação do Sínodo (06.09.1888), a igreja-mãe sediou a organização da Assembleia Geral da IPB (07.01.1910), sendo o Rev. Álvaro eleito moderador. Em seu profícuo pastorado foram implantadas dezenas de novas igrejas e congregações em toda a cidade e a Igreja do Rio se tornou a maior comunidade evangélica da América Latina. São desse período as igrejas filhas de Niterói, Botafogo, Caju, Copacabana, Nilópolis, Ramos e Tomás Coelho. Foi lançado o valioso jornal O Puritano (1899-1958) e criado o Orfanato Presbiteriano. Após o falecimento do grande líder, seguiu-se um breve interregno sob a liderança de Vítor Coelho de Almeida, Laudelino de Oliveira Lima e André Jensen.

Em 1926, assumiu o pastorado o Rev. Matatias Gomes dos Santos. Como ocorreu na época de seu antecessor, muitos jovens foram encaminhados ao ministério e a numerosa equipe pastoral deu continuidade a um vasto trabalho de expansão. As novas igrejas foram as de Nova Iguaçu, Bento Ribeiro, Realengo, Bangu, Turiaçu, Santa Cruz, Anchieta, Parada de Lucas, Maria da Graça e Ilha do Governador. A música sacra teve grande brilho sob a direção do maestro Canuto Régis. O maior feito do Rev. Matatias foi a construção da majestosa catedral, cuja inauguração se deu no Natal de 1942. Seu sucessor foi o Rev. Amantino Adorno Vassão (1946-1980), sendo eleito pastor auxiliar, em 1953, o Rev. Zaqueu Ribeiro. O evento magno desse período foi a comemoração solene do centenário da IPB, em 12.08.1959, com a presença do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira.

No início de 1981, tomou posse o Rev. Guilhermino Cunha da Silva, em cujo vibrante pastorado, que se estendeu até 2015, foi comemorado o sesquicentenário da IPB (2009). Significativamente, todos os quatro ilustres pastores da Igreja do Rio ao longo de mais de um século – Álvaro, Matatias, Amantino e Guilhermino – foram líderes do concílio magno da IPB (Assembleia Geral e Supremo Concílio). Nos anos recentes, estiveram à frente da histórica igreja os Revs. Leonardo Sahium, Jorge Patrocínio, Isaías Cavalcanti e Renato Lopes Porpino, o dirigente atual. Em 12.08.2021, a igreja-mãe deixou de fazer parte do Presbitério do Rio de Janeiro, ao qual esteve jurisdicionada por mais de 150 anos, passando a pertencer ao novo Presbitério do Redentor. Em retrospectiva, é incalculável o legado de bênçãos e realizações dessa longa trajetória, pela qual os presbiterianos brasileiros se sentem profundamente gratos ao Senhor.

Alderi Souza de Matos é historiador da IPB.



Imagens da galeria:

Foto 1: Rev. Ashbel Green Simonton
Foto 2: Rev. Álvaro Reis
Foto 3:  Primeiro templo presbiteriano do Brasil
Foto 4: Foto atual da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro

Galeria de Fotos -


Autor: Jornal Brasil Presbiteriano   |   Visualizações: 3099 pessoas
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